PS, o nervo e a gordura

Filiei-me, em 1998, no Partido Socialista. A motivação mais relevante foi, sem dúvida, ser este o partido mais progressista do sistema político português; para além de ter no meu código genético os ideais da Esquerda republicana.

 

O PS funcionou, nesse período, como nervo social, envolvendo grande parte da sociedade no processo de governação. António Guterres foi o expoente máximo desta capacidade mobilizadora das massas reformistas, se é que se pode aplicar este termo. Foi ele, provavelmente, o político mais conhecedor dos dossiês, com uma visão mais transversal das políticas públicas em Portugal.

O Partido Socialista, à data, era depositário das esperanças de muitos portugueses numa sociedade mais justa a todos os níveis. Responsáveis por estas esperanças foram, entre outros, Mário Soares, Manuel Alegre, Maria de Lurdes Pintasilgo, Salgado Zenha, Jorge Sampaio, António Guterres, Fernando Vale ou Miguel Torga.

Em torno destes nervos, movidos por impulsos reformistas, foi surgindo muita gente, a grande maioria movida pelos mesmos ideais e uma porção de oportunistas. Acredito que tal porção de oportunistas tenha sido pequena, mas, como acontece em qualquer partido com acesso ao poder, filiam-se com o objectivo de “resolver a vida”.

As pessoas com espírito reformista mudaram muita coisa para melhor em Portugal. Ganhámos políticas sociais dignas de países de desenvolvidos, entrámos para a União Europeia e para o euro.

Mas muitos quadros socialistas também foram mudando, casaram, tiveram filhos, endividaram-se e começaram a gostar de whisky velho e de fumar charuto cubano. Em dias festivos, metiam boina anarquista, habituaram-se ao conforto do Audi, ao motorista, ao tratamento de sr. dr para aqui e para acolá. O conceito de camarada tornou-se folclore, usado entre portas, renegado imediatamente pelo «rabo-de-bacalhau» preso ao colarinho. A barriguinha cresceu, o poder tornou-se profissão, já havia peso a mais para começar outra vida.

É assim que um indivíduo, tantas vezes a roçar o revolucionário, vira conservador, não de políticas ou costumes ou valores, mas sim de poder, em especial do seu, regalias, mordomias e palcos. Evolução? “Calma aí, mudar é arriscado, mudar só com uma máquina de marketing, pois mesmo que nada mude pareça que tudo mudou”.

Em cima destas barriguinhas pesadas, foram embalados meninos que passaram a vida a ouvir discutir dentro do BM, na casa da praia e a caminho do México, como resolver os problemas dos pobres. Estes, tal como os pais, começaram a achar-se especialistas na acomodação social e as gorduras duplicaram.

Aos vintes e poucos anos, queimam algumas etapas, e parte destes filhos do 25 de Abril de 1974 ou do 25 de Novembro de 1975, conforme a perspectiva, metem a gravatinha e seguem o risco sem arriscar, “sim”, “pois claro”, “cuidado”, “jeito aqui e acolá”, ”é amigo do meu pai”, “solidário com os nossos”, “às vezes desenrasca os outros, nunca se sabe”, “homem pragmático, nos seus problemas”, “a ideologia é muita bonita, mas..”, e ai está o «yes-man». Às vezes, muito violento na intriga e no rumor, mas confronto nunca, porque ninguém sabe o que nos espera.

Toda esta gordura é incapaz de falar, aberta e frontalmente, de corrupção e crimes conexos, a par das quotas, das empresas municipais e de outros atalhos para com dinheiros públicos satisfazer ganâncias privadas.

Por toda esta gordura, estou muito renitente em participar nas disputas internas do PS/Coimbra, mas disponível, como sempre, para discutir o nervo, a luta contra a corrupção e as contas dos partidos, as eleições directas, a regionalização, o Estado e as parcerias público-privados, o interesse publico, como redistribuir melhor a riqueza e a igualdade de oportunidades.

Ainda olho para o PS como uma força progressista, mas é preciso estimular a nossa massa “nervosa”, para que este projecto seja sempre digno de gente como António Arnaut e Fernando Vale, expoentes máximos desse nervo social que o PS foi e deve ser.

 

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