A inovação tecnológica não é a política

A recente Cimeira Ibero-americana, cuja realização levou a Lisboa vários chefes de Estado e/ou de Governo, começou com declarações de Cavaco Silva e de José Sócrates a salientarem a importância das novas tecnologias para fugir à crise e ao subdesenvolvimento. É Natal, época de acreditar na boa vontade do Homem. Sendo entusiasta das fantásticas tecnologias, dediquei-lhes boa parte da minha vida profissional (para além de geógrafo, também sou técnico de multimédia há mais de 10 anos).

Portugal é, hoje, um país mais bem apetrechado tecnologicamente do que há uma década; em algumas áreas, até está à frente a nível mundial, como seja, por exemplo, ao nível das infra-estruturas (via-verde ou a rede de Multibanco). Ora, isso não invalida que tenhamos das auto-estradas mais caras da Europa ou dos bancos que mais serviços cobram aos utilizadores com menos despesas.

As novas tecnologias fazem todo o sentido como instrumento de desenvolvimento, sempre projectadas para a melhor repartição da riqueza. Este objectivo deve nortear as politicas dos estados, especialmente dos países governados por partidos de Esquerda (caso de Portugal). Politicas essas de redistribuição da riqueza, reafirmadas, e bem, por um ministro venezuelano à chegada a Lisboa.

Sinto que as novas tecnologias, até hoje, têm servido, fundamentalmente, os interesses dos mais poderosos (como a fuga de capitais para «paraísos fiscais», sem deixar rasto) ou para cobrar mais por um serviço (com menos gastos em mão-de-obra). Não podemos, por conseguinte, negar que as desigualdades no mundo acentuaram-se em simultâneo com a evolução tecnológica.

Apesar de tudo, não me esqueço que sem ela não podia ter enviado este texto para o Jornal via correio electrónico, nem corrigi-lo automaticamente. Sem ela, não teríamos tido a oportunidade de saber das escutas a que foi sujeito o sucateiro Godinho, que continuaria por aí, provavelmente, a comprar lebre por gato.

A tecnologia pode servir para muita coisa, depende da utilidade que a sociedade lhe der. Convirá os políticos não trocarem a leitura de Karl Marx ou de Engels pelas «bocas» do Facebook ou do Twitter, pois aquela pode dar sentido a estas.

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