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A fé de Vara
Depois de ter sido ouvido, ontem, pelo juiz de instrução criminal da comarca do Baixo Vouga, o ex-ministro Armando Vara (PS) proclamou a sua inocência. Ao declarar-se tranquilo, o arguido alegou nada ter feito daquilo que lhe é imputado.
“As acusações (...) nunca aconteceram”, disse o bancário que ascendeu a banqueiro (administrador do BCP, agora com a função suspensa). A afirmação, longe de ser um prodígio em matéria de clareza de linguagem, talvez possa ser interpretada à luz da vocação do autor, cuja carreira na banca o leva a privilegiar os números em detrimemto das palavras. O arguido sugeriu ser um banqueiro pragmático, subtraído à azáfama das contas, como diria o ministro da Economia, por algum devaneio ao serviço da “espionagem política”. Armando Vara também afirmou estar certo de que o julgamento provará aquilo que ele dissera. Trata-se de outro desabafo curioso. Nada do que é imputado ao arguido aconteceu, alega, mas ele já dá como certa a dedução de acusação, a cargo do Ministério Público, e até, porventura, a reiteração da mesma por parte de um juiz de instrução. A fé do banqueiro reside no julgamento. Percebe-se. Com decisões como a do presidente do Supremo Tribunal de Justiça – Noronha Nascimento, que, ao arrepio da melhor doutrina, mandou destruir as escutas a Vara em que interveio José Sócrates –, justifica-se a expectativa do arguido. A fé do ex-sócio de Sócrates é alheia à advertência do professor universitário e ex-juiz Paulo Pinto de Albuquerque, que declarou “inadmissível um regime de privilégio [em matéria de escutas telefónicas] para as pessoas das relações do primeiro-ministro”. Será que a Justiça já não é cega?
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